Movimento Ask Her More movimentou a indústria

Ask Her More e os movimentos que transformaram o tapete vermelho

Já falei aqui no blog que uma das coisas que mais amo na moda é a sua capacidade de ser um reflexo de movimentos culturais e históricos. Muitas vezes, a forma de nos vestir ultrapassa as fronteiras das tendências e se transforma em um ato político. Na coluna Mindstyles de hoje, vamos falar sobre como a busca pela igualdade de gênero e o empoderamento feminino viraram a indústria cinematográfica e o tapete vermelho de cabeça para baixo.

Movimentos que transformaram o tapete vermelho: Ask Her More

O primeiro chacoalhão em Hollywood aconteceu em 2015, com a criação do movimento Ask Her More (Pergunte Mais a Ela). O projeto foi criado por Jennifer Siebel Newson, cineasta e fundadora da ONG The Representation Project, que analisa a forma como as mulheres são representadas na mídia. Objetivo? Pedir que a cobertura do tapete vermelho fosse além da pergunta “o que você está vestindo hoje?”.

Movimento Ask Her More

Ask Her More teve o apoio de várias atrizes

 

“Não pergunte apenas sobre o vestido. Pergunte sobre a mulher que está usando o vestido”, diz o mote da campanha. O movimento foi liderado pelas atrizes Cate Blanchett, Emma Stone, Amy Poehler, Julianne Moore e Reese Whiterspoon. Blanchett, aliás, virou notícia ao interromper uma entrevista no momento em que um cinegrafista filmava seu vestido. “Você faz a mesma coisa com os homens?”, perguntou, ao vivo.

Cate Blanchett em cerimônia de premiação

Me Too

 

Em outubro deste ano, o todo-poderoso produtor de Hollywood Harvey Weisntein foi demitido de sua própria empresa após a publicação, pela revista The New Yorker e pelo jornal The New York Times, de uma série de acusações de assédio sexual. O fato reacendeu o movimento MeToo (Eu Também), criado pela norte-americana Tanara Burke em 2007. Tanara é fundadora da Just Be Inc, ONG voltada à promoção do bem-estar de garotas negras e demais minorias.

Movimento MeToo

O MeToo foi criado para apoiar vítimas de abuso sexual, agressão e assédio em comunidades pouco privilegiadas, que têm pouco acesso a auxílio médico e social. “Quando você passa por um trauma e encontra pessoas que tiveram experiências similares, isso cria um laço”, afirma o manifesto.

O termo ganhou força após a atriz Alyssa Milano publicar em seu Twitter uma mensagem pedindo às vítimas que usassem #metoo para dar às outras pessoas uma noção da magnitude do problema. Personalidades como Debra Messing, Lady Gaga, Evan Rachel Wood, Gabrielle Union, Bjork e Patricia Arquette adotaram a hashtag e outras, como Jennifer Lawrence e Reese Whiterspoon, compartilharam suas próprias histórias de abuso.

Tweet da atriz Alyssa Milano

 

Time´s Up

 

O crescimento do MeToo e a repercussão das denúncias levou à criação do Time’s Up (O Tempo Acabou). A iniciativa foi idealizada por um grupo de atrizes e outras funcionárias da indústria para combater casos de violência sexual e discriminação de gênero no trabalho.

Movimento Time´s Up

Entre os objetivos da iniciativa estão criar um fundo de defesa legal para auxiliar mulheres que sofreram assédio sexual e retaliação ao denunciá-lo, propor leis para penalizar empresas tolerantes ao assédio, desencorajar o uso de acordos de silêncio de vítimas e estimular o aumento do número de mulheres em cargos de liderança. “É preciso ter fim a luta das mulheres para serem ouvidas e consideradas em postos de trabalho dominados por homens. Acabou-se o tempo desse monopólio impenetrável”, diz o comunicado oficial. O projeto conta com o apoio de mulheres como Natalie Portman, Shonda Rhimes, Reese Witherspoon, Jessica Chastain e Nicole Kidman.

A moda, é claro, também foi usada para gerar visibilidade ao MeToo e ao Time´s Up. Em janeiro, todas as mulheres desfilaram de preto no tapete vermelho do Globo de Ouro como forma de protesto. Aliás, já comentei sobre esse e outros protestos na moda no blog!

Atrizes foram ao Globo de Ouro vestidas de preto

Atrizes se uniram em prol do movimento

Movimento ganhou força no tapete vermelho

Esses movimentos são necessários?

 

Algumas pessoas podem dizer que está havendo um certo exagero no discurso feminista de hoje em dia. Mas sempre que estamos diante de um momento de enfrentamento, precisamos nos posicionar a todo o instante. Nas pequenas coisas, até que a mudança de atitude se torne hábito e não exceção.

 

Que tal refletirmos  um pouco a partir de dados para responder a essa pergunta? Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), a cada dez minutos um homem assassina uma mulher que foi seu par. Uma em cada 14 mulheres já sofreu algum tipo de abuso sexual, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Na Europa e nos Estados Unidos elas ganham, em média, 16% menos por hora trabalhada que os homens. No Brasil, o salário das mulheres é em média 84% menor que o dos homens. Mulheres ocupam somente 20% dos altos cargos executivos nos países do G7. Nas principais empresas da Bolsa europeia, 74,7% dos presidentes, membros do conselho e representantes dos trabalhadores são homens.

Precisa dizer mais?

A verdade é que cerimônias de premiação e o tapete vermelho são uma plataforma poderosa, que atinge milhões de espectadores todo ano. Por que não usá-la para incentivar o protagonismo feminino?

Sim, é claro que a gente gosta de ficar por dentro dos looks das atrizes, mas está na hora de entendermos que é possível falar de moda, carreira, planos e conquistas ao mesmo tempo. E que, sim, o tempo de ficar calada acabou.